12.5.15

lost stars

"esse verbo, acabar, me lembra morte. e a morte é uma parada tão estranha. no dia em que minha mãe passou mal, a última vez em que a vi viva e bem, era feriado de dia de Nossa Senhora Aparecida. ela estava perseguindo o sol na pontinha do muro lá de casa, que é, no período da tarde, o último ponto em que há sol na casa de meu pai. e eu fui atrás dela como me era comum. e lembro apenas que fiquei remexendo no cabelo dela, que era enrolado como o meu, e eu separei mechas e fiz trancinhas para logo depois desfazê-las. eu não lembro sobre o quê eu e minha mãe conversávamos. falávamos, certamente, mas eu não lembro o assunto. e naquele momento seria impossível para mim pensar nisso, que aquele era um momento de despedida. mas foi.

a verdade é que a gente nunca sabe se aquele momento de intimidade com uma pessoa amada é o último momento bom que ficará na memória. e ainda assim ou porque é assim, somos, algumas vezes, negligentes e parcimoniosos no nosso carinho.

estou aqui lendo coisas por aí porque o sono não veio ainda e lembrei dessa crônica e por conta dela lembrei de minha mãe e por conta dessa certeza de que tudo acaba terminei pensando nisso, de que a gente nunca sabe exatamente quando acaba um momento bom e mesmo assim, somos capazes de desperdiçar por aí como se farto fosse, mas não é.

li histórias acabadas e me pareceu evidente que as últimas palavras que algumas pessoas nos dirigem são desprovidas dessa consciência da despedida e, por conta disso, ou não, banais.

“uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; (…); em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba;”

queria ter tido consciência de que aquele momento no muro era o último momento bom. queria que algumas pessoas soubessem que eu estava indo embora no momento em que fui. provavelmente eu não teria feito nada diferente naquela tarde de outubro remexendo no cabelo de minha mãe. provavelmente as pessoas teriam me deixado ir mesmo sabendo que eu estava indo. não é possível certeza sobre nada, é claro, mas como estou insone eu fico aqui gastando o tempo pensando nisso até o sono chegar."

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