5.2.14

ever thought of calling when you've had a few?

ela tomava cerveja de garrafas verdes, feito gente moderna. eu tomava skol ou brahma, o que fosse mais barato. a gente se conheceu numa noite caótica, no centro do nosso universo. nem me lembro mais se foi em uma balada suja da augusta ou na porta de um puteiro chique da zona sul. não importa. ela enrolava um baseado encostada no muro e depois de uns dois minutos, vi um cara chegar, jogar um pensamento besta na orelha dela e ela agarrá-lo pela bunda e tacá-lo na parede como se a vida dela dependesse daquilo. depois de uns quatro beijos e meio, acho que ela enjoou. deu as costas e saiu andando. me viu sozinha e deve ter se interessado, porque chegou perto e me ofereceu um pega. naquela época eu ainda não fumava, então disse não, obrigada, mas fuma aí. ela achou que era prudente me puxar pela mão e me sentar em algum lugar por ali. enquanto fumava, me falou da vida dela. de tudo. da separação recente dos pais, do gato que tinha fugido, da tatuagem que ela pretendia fazer com a cara do falecido hamster. falou da viagem pra irlanda, pra inglaterra, dos livros que leu e das músicas que gostava de ouvir. me contou sobre o ex-namorado psicótico, sobre a amiga que tinha abandonado ela numa festa porque estava dando para algum cantor que já havia sido famoso um dia, sobre o último filme que ela tinha visto no cinema e detestado e sobre como ela achava o woody allen um filho da puta pretensioso. não parou de falar nem por um segundo, nem para respirar, acho que nem o suficiente para soltar toda a fumaça que estava na garganta. encerrou dizendo que precisava de algum drink que tivesse vodka e nunca mais voltou.

encontrei ela depois de vários meses numa outra festa dessas descoladas que existem em qualquer lugar de são paulo. eu não havia perguntado o nome dela da outra vez, e nem ela o meu. mas me encontrou depois das 3 da madrugada ensopada na pista da dança e me puxou pela mão de novo. me tirou daquele calor, me levou pra varanda e me deu um abraço quente. acendeu um baseado e me ofereceu. disse que havia visto uma apresentação ao vivo no meio da calçada da paulista e lembrara de mim. talvez eu achasse estranho se qualquer outra pessoa que eu mal conhecesse dissesse aquilo, mas tudo nela era intenso demais e eu me interessava. a gente falou da vida por mais umas duas horas, bêbadas e loucas.

gosto de lembrar dela de batom vermelho borrado e vestido florido. gosto de lembrar do cabelo bagunçado e da cambalhota que a minha vida deu depois de todas as palavras que saíram da boca dela. gosto de lembrar das duas noites que a gente compartilhou e que me deixaram encantada por ela.

talvez por isso tenha sido tão triste ver ela partir. de novo.

1  +:

Antônio LaCarne disse...

eu fico muito feliz e ao mesmo tempo radiante quando leio textos assim, que transbordam de inspiração.

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