1.6.11

morangos mofados

um dia de monja, um dia de puta, um dia de joplin, um dia de teresa de calcutá, um dia de merda.

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explode junto comigo.

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não tenho nada contra qualquer coisa que soe a: uma tentativa.

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tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso.

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já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê?

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anoiteci.

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não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída.

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tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

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eu tive tanto amor um dia, ela pára e pede, preciso tanto tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era.

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eu não tinha essas marcas em volta dos olhos, eu não tinha esses vincos em torno da boca.

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te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez.

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isso o remetia a outras feridas mais antigas, nem mais nem menos dolorosas, porque a memória da dor da feridantiga amenizou-se, compreende? menos pela cicatriz deixada, uma feridantiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva.

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se bem que, como rugas e perdas, cicatrizes também fossem troféus.

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só não sabia de si, nem de parâmetros, o de camisa xadrez – aquele que muito fora amado e ferira fundo de faca a quem o amou: permanecia mudo parado suspenso entre várias coisas que já não eram e outras tantas que poderiam vir a ser, ou não.

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haviam chegado a um ponto em que verbalizar morcegos poderia arruinar tudo, mesmo que nada houvesse a ser arruinado. mesmo que sequer houvesse morcegos.

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de ti, quase não sei. mas equilibras o que entre ele e eu é pura sombra.

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já reparaste como o mundo parece feito de pontas e arestas? já chamei tua atenção para a escassez de contornos mansos nas coisas? tudo é duro e fere.

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dentro dele algo permanecia imóvel.

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ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. e não seria verdade. nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro do que chamaria – tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las – vaga e precisamente de: a grande falta.

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não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto – se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto, mas se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada. tenho pensado se não guardarei indisfarçáveis remendos das muitas quedas, dos muitos toques, embora sempre os tenha evitado aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia, e mesmo assim insisto.

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uma espera tão reluzente que já é certeza.

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tem uma coisa dentro de mim que continua dormindo quando eu acordo, lá longe de mim.

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olha, antes de ir embora eu quero dizer a você que aposto nas ameixas. foi isso que me veio na cabeça depois que saí caminhando. e quando entrei aqui no edifício, de costas para o enterro, o tempo todo, sem olhar pra trás, no elevador, na sala de espera, quando entrei e sentei aqui, o tempo todo. – os olhos brilham mais. nunca ela me olhou tanto tempo de frente, antes. – eu quero, certo? eu preciso continuar apostando nas ameixas. não sei se devo, também não sei se posso, se é. permitido? sei lá, acho que também não sei o que é dever ou poder, mas agora estou sabendo de um jeito muito claro o que é precisar, certo? e quando a gente precisa, não importa que seja proibido. querer? – interrompe-se como se eu tivesse feito uma pergunta. mas eu não disse nada. – querer a gente inventa.

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mas já não sou capaz de me calar, talvez dirás então, descontrolado e um pouco mais dramático, porque meu silêncio já não é uma omissão, mas uma mentira. o outro te olhará com olhos vazios, não entendendo que teu ritmo acompanharia o desenrolar de uma paisagem interna absolutamente não verbalizável, desenhada traço a traço em cada minuto dos vários dias e tantas noites de todos aqueles meses anteriores, recuando até a data maldita ou bendita, ainda não ousaste definir, em que pela primeira vez o círculo magnético da existência de um, por acaso banal ou pura magia, interceptou o círculo do outro.

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teu coração baterá com força, sem que ninguém escute, e por um momento talvez imagines que poderias soltar os membros e simplesmente tocá-lo, como se assim conseguisses produzir uma espécie qualquer de encantamento que de repente iluminaria esta sala com aquela luz que tentas em vão descobrir também nele, enquanto dentro de ti ela se faz quase tão tangível de tão clara. nítida luz que ele não vê, esse outro sentado a teu lado na sala levemente escurecida, onde os sons externos mal penetram, como se estivessem os dois presos numa bolha de ar, de tempo, de espaço.

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a presença do outro latejaria a teu lado quase sangrando, como se o tivesse apunhalado com tua emoção não dita. tuas mãos apoiadas em bengalas mentirosas não conseguiriam desvencilhar o gesto para romper essa espessa e invisível camada que te separa dele. por um momento desejarás então acender a luz, dar uma gargalhada ridícula, acabar de vez com tudo isso, fácil fingir que tudo estaria bem, que nunca houve emoções, que não desejas tocá-lo, que o aceitas assim latejando amigo belo remoto, completamente independente da tua vontade e de todos esses teus informulados sentimentos.

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enganado supões que tu e ele vezenquando sejam um só.

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dependes dele para que te ilumines ou escureças assim, intensamente.

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não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele.

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só não saberás nunca que nesse exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva.

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para sempre à espera de algo que não acontecia.

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não se dilacere sem necessidade, meu bem.

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ainda que nada dissesse, era sempre como se dissesse alguma coisa.

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é daquele emaranhado cheio de dor e angústia fria e solidão escura que ela arranca essa beleza que joga pra fora.

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"aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira."

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não que estivesse triste, só não sentia mais nada.

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– você tem uma coisa nas mãos agora.
– eu?
– eu.

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eu só sinto, mas não sei o que sinto. quando sei, não compreendo.

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natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.

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num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.

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como se houvesse, entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.

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tu me acostumbraste.

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às vezes olhavam-se. e sempre sorriam.

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perdi um pedaço, tem tempo. e nem morri.

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quem procura, não acha. é preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. não há nada a ser esperado. nem desesperado.

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você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. e você sabe disso. o caminho é in, não off. você não vai encontrá-lo em deus nem na maconha, nem mudando pra nova york, nem.

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você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco.

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ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também.

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e te cuida, por favor, te cuida bem.

2  +:

Santiago disse...

espero que vc esteja na época dos "morangos".

Renata disse...

Eu com certeza estou na fase do mofo. Nem preciso chegar na parte dos morangos pra saber =]

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