6.12.10

don't be afraid to lift your wings

Acordou sem saber aonde estava, virou-se e olhou no relógio. 23:47. Estava sozinha, sem conseguir se mexer direito. O que era aquilo? Morfina? Não, não podia ser, lembrava do efeito da morfina no corpo. Bem, não sabia o que era, então procurou tentar levantar mesmo assim. O corpo estava mole e seus membros pareciam não pertencer à ela mesma, mas acabou se erguendo.

Deu uma boa olhada em volta. Agora tinha certeza: nunca havia estado ali. Mas como fora parar naquele lugar? Quem a trouxera? Sentou-se novamente na cama, ainda meio desnorteada. Viu de longe uma figura masculina se aproximar. Vinha assobiando, cantarolando uma canção. Trazia uma bandeja na mão e ela reconheceu imediatamente o cheiro de pão fresco.

Logo que chegou ao pé da cama, o homem a cumprimentou. Deu-lhe um longo e molhado beijo na bochecha e um abraço apertado, como se não a visse há muito tempo. Ele tinha cabelos grisalhos e seu hálito cheirava a menta. Não sabia quem era aquela pessoa, mas o aroma de menta não lhe parecia estranho...

Quase que imediatamente, lembrou-se: tinha estado em uma festa, bebendo. Deve ser isso! - pensou. Apaguei na festa e este homem me trouxe para sua casa. Mas não. Não era. Ela sabia que não era. Deixou que sua mente percorresse todos os espaços de sua memória. Olhou para o canto do quarto e reparou em um pequeno bichinho de pelúcia. Se parecia com um coelho, mas não poderia afirmar com certeza pois estava velho, encardido e tinha uma orelha arrancada.

Aquela figura permanecia à sua frente e ela esperava respostas. Respostas que não vieram. Resolveu, então, perguntar: de onde eu te conheço? Ao que o homem só conseguiu dizer: filha...

De repente, um redemoinho de lembranças invadiu seu corpo, sua mente, seu ser. A ausência de sentimentos foi aniquiladora. Não reconhecia aquilo. Não fazia parte dela. Lembrou do pai abrindo a porta. Lembrou de estar com o coelho de pelúcia na mão. Lembrou dele tentando arrancá-lo dela. Lembrou da orelha caindo no chão. Lembrou do choro. Lembrou dele saindo. Lembrou de ter tentando nunca mais se lembrar.

Levantou e correu. Ainda estava fraca, mas a intensidade do que sentia agora lhe deu força. Abriu a porta da casa e saiu. Correu, correu e correu. Não sabia o quanto estava correndo e nem para onde estava indo, mas precisava se afastar. Precisava matar o que estava dentro dela. E o vento era refrescante. Passava por ela e parecia levar um pouco daquilo consigo. Foi se cansando e parando aos poucos. Olhou e viu o parque. Mais uma onda de lembranças a inundou. Evitara visitar aquele parque durante muitos anos, pois guardava ali tudo de ruim que necessitava esquecer.

Havia muitas coisas jogadas, espalhadas, desarrumadas. Outras tantas quebradas. E apenas algumas esquecidas. Foi assim que começou. Mantinha-se anestesiada. Vivendo e não-vivendo ao mesmo tempo. Só passava o tempo. Não pertencia a lugar nenhum. Quase não existia. E quando existia, era pouco ainda. Não suportava lidar com aquilo. Como ele pôde? Não, não podia pensar. Apaga, apaga. Se forçava a pensar em outros assuntos. Que rua esburacada... Mas como ele pôde, meu deus? Pára. Por favor. Pára.

Fez sinal para um táxi. Entrou e tentou se acalmar. Falou para que ele a levasse para casa. Mas em que lugar a senhorita mora? - perguntou. Não sei, não sei, só me leve para qualquer lugar distante o bastante. Não possuía nada. Dormia cada dia na casa de um estranho novo. E assim procurava se preencher. Se manter inteira. Mas não era possível. Ela sabia. O vazio era grande demais para ser suprido. O buraco dentro de si só fazia aumentar mais e mais. Chegaria o dia em que só sobrariam algumas pequenas partes daquele corpo, de tanto que já não era nada. Sempre foi nada. Ela nunca esteve ali.

E ninguém nunca mais a viu.

1  +:

Anônimo disse...

Muito bom este texto, Aline.

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