18.11.10

olhos nos olhos

Eu respeitei o seu direito, mas eu sabia do que você estava falando. E essa constatação me derrubou e ardeu dentro de mim.

Imaginei como seria estar no seu lugar, sentindo tudo isso. Todo esse terremoto. E, pela primeira vez em meses, voltei a me sentar ao seu lado. Foi diferente do que costumava ser. Minhas pernas bambearam, mas dessa vez eu me contive. Eu sabia que teria de ser forte. Você precisava de mim naquela hora. E eu, ah, eu precisava de você mais do que nunca.

Não foi fácil, sabe. Eu sabia que aquele lugar me pertencia, mas não conseguia me sentir adequada ali. Algo não encaixava mais. Me perguntei aonde estava o laço invisível que sempre esteve ao nosso redor. Não havia nada. Tudo aquilo que um dia senti, havia morrido. Meu peito estava em brasas.

E lá estava eu, ao seu lado. Sentada no meu lugar de origem. Eu não tive tempo de comentar, mas esses dias vi uma fotografia sua por aí. Você se lembra que amanhã completaríamos seis anos? Seis anos desde aquele dia. Mas não estávamos ali para falar sobre isso.

Estávamos ali pois naquele momento, mais do que em qualquer outro momento da eternidade que passamos juntos, você havia solicitado a minha presença e eu me comprometi a estar lá. Estávamos ali pois já não aguentávamos mais o peso daquele falecimento. Era impossível suportar. Incomodava.

E decidimos então matar o que havia restado. Na minha frente, vi tudo virar pó. O que senti, me surpreendeu. Foi alívio. Foi carinho, pena, dor, amor, tristeza e, finalmente, alívio. Havia acabado, eu sabia. Há muitos meses atrás. Mas aquele esqueleto ainda vivia escondido e resolvemos liquidá-lo. Terminou ali, toda aquela história.

O que restou foram algumas flores arrancadas do jardim do vizinho naquele dia escuro, que eu guardei em livros aleatórios para sempre me lembrar de você.

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Santiago disse...

Fica difícil distinguir morte de vida.

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